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UMA ANÁLISE BÍBLICA SOBRE A DOUTRINA DO DÍZIMO

Ev. Jesiel Lincoln dos Santos

 

 

Ao estudar esta apostila, fique por dentro dos seguintes assuntos:

 

 

O costume de se pagar ou entregar dízimos não se originou com os israelitas, pois já era conhecido e praticado por diversos povos da antiguidade.

 

Na Bíblia, a primeira referência encontramos em Gên. 14:18-20: “Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era este sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou ele a Abrão e disse: Bendito seja Abrão do Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo”.

 

Temos ainda Gên. 28:20-22: “Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista, de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então, o Senhor será o meu Deus; e a pedra, que erigi por coluna, será a Casa de Deus; e, de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo”.

 

Abraão regressava da matança dos reis quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro. Desta forma, torna-se evidente, que o dízimo foi entregue como uma demonstração de gratidão. Já no caso de Jacó, foi uma questão de devoção, uma questão de voto.

 

Concluímos, então, que em Gên. 14:18-20 e Gên. 28:20-22, o dízimo não aparece como sendo uma imposição legal ou mandamento incondicional. Se assim fosse, Jacó automaticamente o entregaria e não faria um voto para isto.

 

Antes, porém, de iniciarmos a análise da doutrina do dízimo no sacerdócio de Arão, cabe aqui uma pergunta de capital importância: Sobre o que foi requerido que os judeus pagassem dízimos?  Eis a resposta:

 

Também todos os dízimos da terra, quer dos cereais, quer dos frutos das árvores, pertencem ao Senhor; santos são ao Senhor. Se alguém quiser remir uma parte dos seus dízimos, acrescentar-lhe-á a quinta parte. Quanto a todo o dízimo do gado e do rebanho, de tudo o que passar debaixo da vara, esse dízimo será santo ao Senhor. Não se examinará se é bom ou mau, nem se trocará; mas se, com efeito, se trocar, tanto um como o outro será santo; não serão remidos”. Lev. 27:30-33

 

A Torá legislava que os produtos da terra e do rebanho deveriam render dízimos. Se um hebreu preferisse dedicar a décima parte da produção de seus cereais e frutas, na forma de seu valor monetário, tinha a liberdade de fazê-lo, mas um quinto dessa soma tinha de ser adicionado. Não lhe era permitido redimir a décima parte de seus rebanhos desse modo.

 

A maneira de pagar o dízimo do gado era como segue: O proprietário contava os animais conforme iam passando para o pasto e cada décimo animal era dado a Deus. Assim, não havia a possibilidade de selecionar animais inferiores para o pagamento do dízimo dentre o rebanho.

 

Analisando Lev. 27:30-33, percebemos a existência de dois tipos de dízimo: O que procede da lavoura e o que vem do rebanho. No entanto, ao falarmos dois tipos de dízimo, não queremos dizer que de 10% passa a 20%. São dízimos diferentes quanto à sua procedência e leis que os envolvem.

 

De Êxodo a Números existe uma farta legislação que teria por objetivo reger a vida dos israelitas até a entrada destes na terra prometida. Este é o tempo das peregrinações no deserto, um espaço completo de quarenta anos. Em tais circunstâncias, a nação de Israel viveu um estágio nômade, situação que se aplica a quem não tem habitação fixa.

 

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Para uma melhor compreensão:

 

Sociedade nômade: A princípio, os hebreus eram pastores nômades (não tinham habitação fixa) que se dedicavam à criação de ovelhas e cabras. Tudo o que se produzia era distribuído pela comunidade, não havendo a propriedade privada. O rebanho e os demais bens pertenciam a todos. Vivia-se num ambiente de igualdade socioeconômica.

 

Sociedade sedentária: Instalados na Palestina, os hebreus foram abandonando os antigos costumes das comunidades nômades. A vida tornou-se sedentária. Desenvolveram-se a agricultura e o comércio. Surgiu a propriedade privada das terras e dos demais bens. Apareceram as diferentes classes sociais e a exploração de uma classe pela outra.

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Entretanto, mesmo peregrinando e vivendo em acampamentos, os hebreus estavam na obrigação de realizar o culto sagrado e oferecer a Deus sacrifícios e ofertas. A casa de Arão foi escolhida para exercer o sacerdócio, tendo a ajuda dos demais integrantes de sua tribo, a tribo de Levi (Êx. 28:1; Núm. 1:47-54).

 

Em Núm. 18 encontramos os deveres e direitos dos sacerdotes e levitas. Faremos agora, uma explanação sobre este capítulo e seu conteúdo:

 

Números 18:1-7:         Mostra qual deve ser os deveres dos sacerdotes e levitas

Números 18:8-11:       Deus concede aos filhos de Arão toda a oferta alçada

Números 18:12,13:      Deus concede aos filhos de Arão as primícias

Números 18:14-18:     Deus concede aos filhos de Arão todos os primogênitos

Números 18:19,20:      Deus repete o direito dos sacerdotes sobre a oferta alçada

Números 18:21-24:     Deus concede aos levitas todos os dízimos de Israel

Números 18:25-32:     Os levitas devem dar aos filhos de Arão o dízimo dos dízimos

A leitura atenta de Núm. 18 nos mostra: Os sacerdotes, filhos de Arão, tinham direito à todas as ofertas alçadas, às primícias, todos os primogênitos e o dízimo dos levitas. Os levitas teriam direito aos dízimos dos filhos de Israel.

 

Contudo, devemos saber que Núm. 18 é uma legislação intermediária entre o restante do livro e Deut. 14:22-29. Doravante vamos procurar esclarecer esta afirmação.   

 

Alguém sugeriu que em Números e Deuteronômio existem dois dízimos. O primeiro, mencionado em Números, era exclusivo para os levitas. Este, não era compartilhado com ninguém e não tinha outras finalidades. O segundo, citado em Deuteronômio, seria um dízimo extra, que os israelitas usavam para as despesas de suas festas anuais e assistência social. Existe ainda os que advogam a existência de um terceiro dízimo, valendo-se, para tanto, de uma passagem do livro apócrifo de Tobias.

 

Este pensamento, logicamente, não possui respaldo bíblico, mas vamos conhecer alguns argumentos que atestam a nossa posição.

 

O livro de Números foi escrito durante o tempo em que os israelitas realizavam suas peregrinações no deserto. Tanto que entre os escribas judeus era conhecido pelo nome “No Deserto”, que no hebraico é apenas uma palavra, “Bemidbar”, um título extraído do primeiro versículo do livro, Núm. 1:1:

 

No segundo ano após a saída dos filhos de Israel do Egito, no primeiro dia do segundo mês, falou o Senhor a Moisés, no deserto do Sinai, na tenda da congregação”.

 

Já o livro de Deuteronômio, foi escrito bem mais tarde, quando a nação de Israel se encontrava na terra de Moabe, a leste do rio Jordão, preparando-se para tomar posse da sua herança. O povo então, deixava a vida de nômade para se fixar nos limites prometidos por Deus, o que ocasionou algumas mudanças nas leis que vinham observando enquanto estavam no deserto. Com tal afirmação, estão de acordo os maiores exegetas e comentaristas da Bíblia.

 

A Edição Revista e Corrigida de Almeida, Editora Vida, assim comenta na introdução que faz ao livro de Deuteronômio:

 

O nome do livro de Deuteronômio, ou segunda lei, sugere sua natureza e propósito. Figura, segundo consta em nossas Bíblias, como o último dos cinco livros de Moisés, fazendo um resumo e pondo em relevo a mensagem que os quatro livros precedentes contêm. Não significa isto que se trata de mera repetição do que ficou dito anteriormente. Sem dúvida, Deuteronômio faz parte dos acontecimentos históricos que se deram previamente, em particular no Êxodo e em Números. Contudo, vai além destes relatos, visto que os interpreta e os adapta.

 

Através deste livro, os acontecimentos estão repletos de significado. Moisés proporciona-nos bastante história; mas em quase todos os casos relaciona os acontecimentos com a lição espiritual que sublinham. Toma a legislação que Deus dera a Israel havia quase 40 anos, e adapta-a às condições de vida da coletividade na terra para a qual Israel se mudaria em breve”.

 

Tal declaração é biblicamente provada. Algumas leis que Israel vinha observando enquanto viveu no Egito e no deserto sofreram profundas modificações quando o povo chegou a Canaã. Eis alguns exemplos:

 

LEI                                                    NO DESERTO                      ADAPTADA

 

A Páscoa:                                           Êx. 12:1-7                               Deut. 16:5,6

A eleição de juízes:                              Êx. 18:25                                Deut. 16:18

A ereção de altares:                             Êx. 20:24                                Deut. 12:13,14

A libertação de escravos:                     Êx. 21:1-6                               Deut. 15:12-17

O sacrifício profano:                            Lv. 17:1-9                               Deut. 12:15,16,20-25

A oferta dos primogênitos:                   Nm. 18:14-18                         Deut. 15:19,20

O dízimo:                                            Nm. 18:21                               Deut. 14:22-29; 26:12

 

Por sacrifício profano, entende-se que seja aquele sacrifício que é feito para se ter a carne do animal por alimentação comum.

 

O livro de Deuteronômio não sugere a existência de outro dízimo, mas faz uma regulamentação desta lei, tendo em vista a nova etapa da vida religiosa de Israel, como nação fixada em sua própria terra e tendo um santuário central para a prática de seu culto e adoração a Deus.

 

A Versão Revista e Atualizada de Almeida, Edições Vida Nova, faz a seguinte análise sobre o livro de Deuteronômio:

 

O nome do livro de Deuteronômio ou Segunda Lei sugere sua natureza e propósito. Situada apropriadamente em nossas Bíblias como o último dos cinco livros de Moisés, põe em foco a mensagem incluída nos quatro livros anteriores. Isto não significa que se trata de mera repetição do que é dito previamente. O livro de Deuteronômio, é verdade, focaliza os acontecimentos ventilados anteriormente, particularmente nos livros de Êxodo e Números. Porém, ultrapassa esses registros devido ao fato de que tanto os interpreta como os adapta”.

 

Sobre Deut. 1:3: “No ano quadragésimo. Era um período de transição. Deuteronômio é obra que assinala a transição para uma nova geração, para uma nova possessão, para uma nova experiência (novo modo de vida), e para uma nova revelação de Deus – a revelação de Seu amor”.

 

É óbvio que no deserto não havia lavoura. Nos anos de jornada, Deus mesmo providenciou o sustento do povo:

 

E comeram os filhos de Israel maná quarenta anos, até que entraram em terra habitada; comeram maná até que chegaram aos limites da terra de Canaã”. Êx. 16:35

 

Estando, pois, os filhos de Israel acampados em Gilgal, celebraram a Páscoa no dia quatorze do mês, à tarde, nas Campinas de Jericó. Comeram do fruto da terra, no dia seguinte à Páscoa; pães asmos e cereais tostados comeram nesse mesmo dia. No dia imediato, depois que comeram do produto da terra, cessou o maná, e não o tiveram mais os filhos de Israel; mas, naquele ano, comeram das novidades da terra de Canaã”.  Js. 5:10-12

Quanto a Deut. 14:22-29, a Versão Revista e Atualizada de Almeida faz esta declaração:

 

Na legislação anterior (isto é, Lev 27:30; Núm 18:21), quando o povo ainda se encontrava em seu estágio nômade, os dízimos eram entregues aos sacerdotes e levitas, que provavelmente tinham grande necessidade deles. Agora, entretanto, quando o povo estava preparado para entrar na Palestina e dar início a uma vida estabelecida, é ordenado um uso mais lato dos dízimos”.

 

Não existe margem de erro para estas afirmações. Uma coisa era a vida no deserto e as leis que a regiam, outra coisa foi a entrada do povo na terra prometida e a conseqüente alteração que ocorreu em algumas ordenanças.

 

Fazendo-se uma comparação entre Núm. 18:14-18 e Deut. 15:19,20, percebemos que a lei dos primogênitos seguiu o mesmo princípio de regulamentação que ocorreu com o dízimo.

 

Núm. 18:14-18: “Toda coisa consagrada em Israel será tua. Todo primogênito de toda a carne, que oferecem ao Senhor, tanto de homens como de animais, será teu; contudo os primogênitos dos homens certamente remirás; também os primogênitos dos animais imundos remirás. Os que deles, se houverem de remir, desde a idade de um mês os remirás, segundo a tua avaliação, por cinco siclos de dinheiro, segundo o siclo do santuário, que é de vinte jeiras. Mas todo o primogênito da ovelha, e o primogênito da cabra não remirás, porque são santos. Espargirás o seu sangue sobre o altar, e queimarás a sua gordura em oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. E a carne deles será tua, bem como serão teus o peito da oferta de movimento e a coxa direita”.

 

Deut. 15:19,20: “Todo o primogênito que nascer das tuas vacas e das tuas ovelhas santificarás ao Senhor teu Deus; com o primogênito do teu boi não trabalharás, nem tosquiarás o primogênito das tuas ovelhas. Perante o Senhor teu Deus os comerás, tu e a tua casa, de ano em ano, no lugar que o Senhor escolher”.

 

Deut. 14:23: “E, perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas, para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus por todos os dias”.

 

A Versão Revista e Atualizada de Almeida, já citada anteriormente, faz um breve comentário sobre Deut. 15:19,20:

 

Todo primogênito. No livro de Êxodo, declara-se o princípio de que todos os animais primogênitos deviam ser dedicados a Deus. A antiga lei sobre o sacrifício dos primogênitos (cf Êx 13:2,12; Lv 27:26ss; Nm 18:15ss) é adaptada para as exigências do santuário central, cf 12:15-28”.

 

Em Deuteronômio, tanto os dízimos como os primogênitos, são mencionados juntamente, sendo compartilhados com o próprio ofertante, ficando desta forma, adaptados às exigências do culto centralizado (Deut. 12:17,18; 14:23).

 

Esta questão que envolve a oferta dos primogênitos não pode passar desapercebida, porque é bastante esclarecedora e lança luz sobre quase todo o assunto.

 

O Novo Dicionário da Bíblia, Edições Vida Nova, pág. 435, declara:

 

Onde é que os hebreus deveriam oferecer os seus dízimos? Competia-lhes trazê-los ao lugar que o Senhor vosso Deus escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome (Dt. 12:5-19), isto é, Jerusalém. E o oferecimento dos dízimos deveria tomar a forma de uma refeição ritual, em que o levita também tomava parte (Dt. 12:7,12). Se Jerusalém ficasse por demais distante da vila em que o dizimista morasse, o transporte de suas colheitas poderia criar um problema, mas ele sempre podia levar os seus dízimos na forma de dinheiro (Dt. 14:22-27). Em cada terceiro ano, os dízimos deveriam ser oferecidos na própria localidade em que habitava o dizimista (Dt. 14:28 e seg.), embora nessas ocasiões estava ainda na obrigação de subir a Jerusalém a fim de adorar, após ter oferecido os dízimos em sua própria comunidade (Dt. 26:12 e seg.)”.

 

Deut. 14:28,29: “Ao fim de cada três anos, tirarás todos os dízimos do fruto do terceiro ano e os recolherás na tua cidade. Então, virão o levita (pois não tem parte nem herança contigo), o estrangeiro, o órfão e a viúva que estão dentro da tua cidade, e comerão, e se fartarão, para que o Senhor, teu Deus, te abençoe em todas as obras que tuas mãos fizerem”.

 

 

 

 

 

 

Que fique bem claro, que este dízimo era o da lavoura. O dízimo do gado e o dízimo proveniente de outras fontes não seguem este sistema. Era plano de Deus que a produção da terra atendesse aos anseios espirituais da nação, como também servisse para justiça social.

 

De todos os dízimos que o povo oferecia ao Senhor, o oriundo do campo segue estas prescrições. De ano em ano era levado a Jerusalém e comido pelo próprio dizimista, sua casa e o levita. A cada terceiro ano era deixado para os levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas. Sendo aplicado em benefícios dos pobres, o dízimo alcança uma dimensão comunitária, estabelecendo um vínculo de relacionamento entre Deus, a terra e aqueles que dela se servem.

 

Com base neste pensamento bíblico, atualmente, no moderno Estado de Israel, existem leis que se aplicam aos agricultores, que geram benefícios aos pobres, viúvas e necessitados em geral.

 

A Versão Revista e Atualizada de Almeida, em suas notas de rodapé sobre Deut. 14:22-29 e Deut. 26:12, afirma:

 

O ofertante podia comer dos dízimos (presume-se, porém, que apenas uma pequena parte do mesmo), pela festa de comunhão no santuário. Exceção a isso haveria no terceiro e no sexto ano (28,29), e também no ano sabático bissexto (Êx. 23:11).

 

No ano terceiro. Durante os dois primeiros anos, o dízimo anual deveria ser levado ao santuário central (Deut. 14:22-27). No terceiro ano, entretanto, o dízimo seria armazenado para distribuição entre os pobres”.

 

Um detalhe que não pode escapar à nossa pesquisa está em Deut. 12:11,12,17-19, 14:22-27. Nestes versos, ao falar do dízimo da lavoura que seria oferecido e comido no santuário, o povo é solenemente advertido a que não desampare o levita. Trata-se de uma observação importante, pois se o levita tivesse um dízimo da lavoura exclusivo para ele, já teria sua sobrevivência garantida, não tendo a necessidade de ser lembrado nesta ocasião.

 

De acordo com este pensamento, afirma o Novo Dicionário da Bíblia, pág. 1427:

 

A transição das marchas pelo deserto para a vida fixa em Canaã (antecipada em Nm. 35, no estabelecimento das cidades levíticas), trouxe consigo tanto uma crescente preocupação pelo bem estar dos levitas como uma expansão de seus deveres a fim de estarem à altura das necessidades do padrão de vida descentralizado. No livro de Deuteronômio, põe-se grande ênfase sobre as responsabilidades dos israelitas para com os filhos de Levi, os quais haveriam de compartilhar do regozijo das tribos (12:12), em seus dízimos e em certas ofertas (12:18,19;14:28,29), e em suas principais festividades, especialmente a festa das Semanas e a festa dos Tabernáculos (16:11-14). Os levitas, dispersos por toda a terra prometida, deveriam compartilhar igualmente tanto do ministério como das ofertas com seus irmãos que residiam no santuário central (18:6-8)”.

 

Enquanto vivia no deserto o povo entregava os dízimos aos levitas e estes os comiam em qualquer lugar:

 

Comê-lo-eis em todo o lugar, vós e a vossa casa, porque é a vossa recompensa pelo vosso serviço na tenda da congregação”. Núm. 18:31

 

Uma vez estabelecido na terra, o povo seguiria esta lei:

 

Mas buscareis o lugar que o Senhor, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome e sua habitação; e para lá ireis. A esse lugar fareis chegar os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta alçada das vossas mãos, e as ofertas votivas, e as ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas”. Deut. 12:5,6

 

Dentro das tuas portas não poderás comer o dízimo do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, nem os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas, nem qualquer das tuas ofertas votivas, nem as tuas ofertas voluntárias, nem a oferta alçada da tua mão; mas os comerás perante o Senhor teu Deus, no lugar que ele escolher, tu, teu filho, tua filha, o teu servo, a tua serva, e bem assim o levita que está dentro das tuas portas; e perante o Senhor teu Deus te alegrarás em tudo em que puseres a mão. Guarda-te, que não desampares o levita por todos os dias em que viveres na tua terra”. Deut. 12:17-19

 

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O gráfico apresentado pela Organização Geral de Curitiba (do qual falaremos mais adiante), não leva em conta estes princípios hermenêuticos, o que ocasionou uma série de interpretações arbitrárias.

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Já vimos, em Núm. 18, que os sacerdotes, filhos de Arão, tinham direito às ofertas alçadas, às primícias, aos primogênitos e aos dízimos dos levitas, e que os levitas receberiam os dízimos oferecidos pelo povo.

 

Em Núm. 35:1-8, Deus ordenou aos filhos de Israel, que uma vez estando eles em sua terra, dessem aos levitas quarenta e oito cidades e seus arredores.  Sendo assim, se estabeleceu uma diferença entre os levitas que viveriam nas cidades e aqueles que ajudariam os sacerdotes no santuário central.

Em Deut. 18:1-8, o direito dos sacerdotes se resume às ofertas queimadas, certas partes do animal sacrificado, às primícias da terra e da tosquia das ovelhas. Quanto aos levitas, por viverem estes em suas cidades, viviam do seu próprio patrimônio, mas tinham a liberdade de vir a Jerusalém e ministrar ao Senhor no santuário, comendo de tudo o que ali recebiam seus irmãos. A legislação que aparece entre Núm. 18 e Deut. 18:1-8 é exatamente Deut. 12:1-19 e 14:22-29.

 

Direitos dos sacerdotes e levitas em Núm. 18:

Sacerdotes:      Ofertas alçadas, primícias, primogênitos e o dízimo dos levitas

Levitas:            O dízimo dos filhos de Israel

 

Legislação regulamentada no Código Deuteronômico:

Deut. 12:          O dízimo da lavoura e os primogênitos seriam compartilhados no santuário central entre o ofertante, sua casa e o levita

Deut. 14:          Repetição do que foi dito em Deut. 12, mas com uma adaptação: A cada terceiro ano os dízimos da colheita ficariam nas cidades para assistência social

Deut. 26:          Novamente o povo é lembrado sobre a aplicação dos dízimos da lavoura no terceiro ano

 

Direitos dos sacerdotes e levitas em Deut. 18:

Sacerdotes:      Ofertas alçadas, primícias da terra e da tosquia das ovelhas

Levitas:                        Teriam patrimônio próprio, mas podiam vir à Jerusalém e ajudar no santuário central. Receberiam parte igual a dos seus irmãos que ali ministravam

 

Num rápido bosquejo histórico, podemos constatar pelas Escrituras, que por muito tempo os israelitas viveram sem um santuário central que pudesse unir as tribos sob diretrizes divinas. Tal situação pode ser observada em Juízes 6:24, quando Gideão edificou um altar em Ofra, e em Juízes 17:7-13, ocasião em que um levita procedente de Judá, veio à casa de Mica, um homem de Efraim, e lhe serviu de sacerdote.

 

Mais tarde somos levados a conhecer a história de Eli, um sacerdote descendente de Itamar, filho de Arão. Os crimes e pecados cometidos pelos filhos de Eli, levaram o povo de Israel a abandonar a oferta do Senhor, conforme registra I Sam. 2:12-17. Foi somente mais tarde, nos dias de Salomão, que o sacerdócio foi tirado da casa de Eli e transferido para Zadoque, da linhagem de Eleazar, também filho de Arão (I Sam. 2:27-36; I Reis 2:26,27,35).

 

Com o fortalecimento da monarquia, se fortaleceu também a casa de Zadoque, estando esta intimamente ligada ao templo em Jerusalém. Neste tempo, com a constante apostasia do povo, os levitas inclinaram-se à idolatria. Tal situação pode ser observada em II Reis 23:4-9 e Ezeq. 44:10-12.

 

Nos dias de Josias, rei de Judá, o sumo sacerdote Hilquias encontrou o livro da lei no templo do Senhor (II Reis 22:8). Ao promover uma reforma no serviço sacerdotal, o rei Josias seguiu as leis regulamentadas do Deuteronômio, pois é o que concluímos fazendo-se uma comparação entre Deut. 18:6-8 e II Reis 23:9:

 

Deut. 16:6-8: “Se um levita, saindo de alguma das tuas cidades de todo o Israel em que ele estiver habitando, vier com todo o desejo da sua alma ao lugar que o Senhor escolher, e ministrar em nome do Senhor, como o fazem todos os seus irmãos, os levitas, que assistem ali perante o Senhor, comerá porção igual à deles, fora a das vendas do seu patrimônio”.

 

II Reis 23:9: “Todavia os sacerdotes dos altos não sacrificavam sobre o altar do Senhor em Jerusalém, porém comiam pães asmos no meio de seus irmãos”.

 

Por terem cedido à idolatria e profanado as funções ministeriais que exerciam, os levitas perderam sua posição e passaram a viver da caridade pública. Ainda nos dias do cativeiro babilônico, saiu o oráculo divino contra eles, proferido pelo profeta Ezequiel (Ezeq. 44:10-14).

 

Provavelmente, percebendo esta situação, muitos levitas não quiseram voltar à terra de Israel após o exílio. Vejamos o registro sagrado:

 

Ajuntei-os perto do rio que corre para Aava, onde ficamos acampados três dias. Passando revista ao povo e aos sacerdotes e não tendo achado nenhum dos filhos de Levi, enviei Eliézer, Ariel, Semaías, Elnatã, Jaribe, Elnatã, Natã, Zacarias e Mesulão, os chefes, como também a Joiaribe e a Elnatã, que eram sábios. Enviei-os a Ido, chefe em Casifia, e lhes dei expressamente as palavras que deveriam dizer a Ido e aos servidores do templo, seus irmãos, em Casifia, para nos trazerem ministros para a casa do nosso Deus”. Esd. 8:15-17

 

Comparando-se Núm. 18:21-24 com Heb. 7:5, se denota uma diferença. Em Números, o povo levava os dízimos aos levitas, mas, em Hebreus, nos é dito que os levitas eram quem tomavam os dízimos do povo. Os estudiosos estão de acordo, que este desvio das prescrições da lei, se deve ao fato dos levitas terem encontrado dificuldades em regressar do cativeiro. Biblicamente, isto pode ser provado, lendo-se II Crôn. 31:4-10 e depois Neem. 10:37,38.

 

Enfatizamos, que tanto em Núm. 18:21-24 como em Neem. 10:37,38, o povo de Israel vivia uma situação parecida: Em Números, vida de nômade no deserto. Em Neemias, parte do povo na terra e outra na dispersão. Sendo assim, entendemos que a lei era adaptada às condições sempre mutáveis de Israel.

 

A idéia de um segundo dízimo, teve sua origem na tradição rabínica que começou a se estabelecer depois de Esdras. Esta tradição, a princípio era oral, mas em tempos posteriores foi escrita pelo Rabino Judá, o Príncipe, que morreu em 219 d.C. Seus discípulos continuaram sua obra.

 

Este compêndio de leis tradicionais se tornou o código fundamental do judaísmo rabínico, sendo chamado de Talmude, um termo hebraico que significa aprender. O Talmude possui mais de quinhentos capítulos, divididos em sessenta e três tratados.

 

Nesta obra, fruto da erudição judaica, vemos claramente a forma autoritária e tendenciosa dos rabinos em interpretar a lei. Os absurdos são tantos, que Cristo se referiu a esta tradição como sendo contraditória (Mt. 15:1-9).

 

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Tradição dos anciãos: Refere-se à interpretação oral e expositiva da lei de Moisés, mais tarde codificada na Mishná. O Talmude é um comentário sobre a Mishná, que executava um cerco em volta da lei para evitar qualquer transgressão. Esta tradição modificou profundamente a intenção de Deus. (Leia o anexo sobre o Talmude)

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O Novo Dicionário da Bíblia, Edições Vida Nova, pág. 880, nos transmite uma valiosa informação a respeito:

 

Mais séria é a reivindicação implícita da autonomia do homem versado na Torah. Embora essa reivindique completa autoridade sobre o homem, Deus deixa que o erudito descubra que reivindicação é essa. Essa posição chegou a tais extremos que no Talmude (Menahoth 29b) Moisés é descrito como incapaz de compreender a exposição do rabino Akiba, mediante a qual este descobriu coisas que Moisés nunca imaginou que estivessem latentes em suas próprias leis”.

 

No século IX, alguns estudiosos judeus, os Caraítas, perceberam as imposições arbitrárias do Talmude e se empenharam em fazer uma reforma em muitas de suas exposições. Entraram para a história como os protestantes do judaísmo, pois nesta luta enfrentaram a oposição ferrenha dos rabinos. O resultado deste conflito literário foi o texto massorético.

 

Um bom exemplo dos muitos exageros encontrados no Talmude, é este: A lei proibia os israelitas de ferver um cabrito no leite de sua mãe (Êx. 23:19; 34:26; Deut. 14:21). Tal preceito, provavelmente se referia originalmente a algum ritual cananeu. Mas a tradição rabínica erigiu uma montanha de determinações em cima disto, pois estabeleceu que em qualquer refeição judaica não se pode consumir carne e leite juntamente. Foi mais longe, ordenando que nos lares judeus é necessário equipamento separado de cozinha para a preparação de leite e de pratos que contenham carne.

 

Um outro caso que merece ser lembrado é no tocante ao perdão. Os ensinos do Senhor Jesus nos orientam a perdoar até setenta vezes sete, ou seja, perdoar sempre. Mas o que afirma esta tradição talmúdica? Comentando a respeito de Mat. 18:21,22, a Versão Revista e Atualizada de Almeida faz o seguinte comentário: “Até sete vezes? Pedro quis ser generoso, pois as tradições dos rabinos falavam em perdoar até três vezes”.

 

Tem sido freqüente a nossa abordagem sobre a lei dos dízimos que aparece em Núm. 18, que assinala os dízimos para os levitas, e seu paralelo em Deut. 12 e 14, que permite aos israelitas comerem dos dízimos em uma refeição sacrificial, e que ao mesmo tempo lhes exorta, que a compartilhassem com os levitas. O que fez a tradição rabínica diante desta aparente discrepância? Reconciliou essas duas passagens, ao chamar o dízimo de Deuteronômio de “um segundo dízimo”. A prova concludente que a idéia do segundo dízimo se trata de mera tradição, é que a mesma aparece no tratado talmúdico denominado Ma’aser Sheni.

 

Em oposição a este pensamento, referenciamos os seguintes teólogos: M. G. Kline e James Orr.

 

M. G. Kline, em “Treaty of the great King”, Eerdmans, 1963, pág. 87 e 88, explica que apenas uma pequena porção do dízimo único ia para a refeição comunal e que o dízimo para os pobres era um outro emprego para o dízimo anual a cada terceiro e sexto ano.

 

James Orr, em sua obra “The Problem of the Old Testament”, págs. 188 e 189, explica: As leis de Deuteronômio se aplicam a um período quando as leis sobre o dízimo e aquelas relacionadas às cidades levíticas não podiam ser postas em vigor, visto que a conquista da terra ainda não estava completa e não havia agência central que as executassem. Em outras palavras, Núm. 18:21-24 trata sobre o ideal de Israel, enquanto que Deut. 14:22-29, apresenta um programa interino visando a conquista e a fixação na terra.

 

A existência do segundo e do terceiro dízimo tem sido argumentada por alguns com base no livro apócrifo de Tobias, na tradução da Bíblia de Jerusalém: Eis o texto:

 

Muitas vezes eu era o único a vir em peregrinação a Jerusalém, por ocasião das festas, para cumprir a lei que obriga todo o Israel para sempre. Acudia pressuroso a Jerusalém com as primícias dos frutos e dos animais, o dízimo do gado e a primeira lã das ovelhas. Eu as entregava aos sacerdotes, filhos de Arão, para o altar. Aos levitas, então em serviço em Jerusalém, eu dava o dízimo do vinho e do trigo, do óleo, das romãs, dos figos e dos outros frutos. O segundo dízimo eu o pagava em dinheiro, pelo espaço de seis anos, e ia gastá-lo cada ano em Jerusalém. O terceiro dízimo eu o entregava aos órfãos, às viúvas e aos prosélitos que viviam com os filhos de Israel; levava-o e o dava a eles de três em três anos”. Tobias 1:6-8

 

Os que usam estes versos para provarem seus argumentos a respeito do segundo e do terceiro dízimo, deviam saber que no mesmo livro, 5:11-14, o anjo Rafael aparece mentindo ao velho Tobias. Que credibilidade se pode dar a um livro onde um anjo, que se diz de Deus, mente e engana os outros?

 

O Conciso Dicionário Bíblico, da Imprensa Bíblica Brasileira, pág. 173, afirma que entre os reformadores e católicos romanos, o livro de Tobias foi assunto de discórdia, tendo ele provocado a hostilidade dos críticos por não ser histórico, e dos moralistas, pela introdução dum anjo que contava mentiras. O mesmo Dicionário declara que este livro foi escrito no primeiro século antes de Cristo e suas narrativas visavam despertar nos judeus a mais rigorosa piedade legal.

 

O livro de Tobias é apócrifo e não pode ser invocado para o debate de questões doutrinárias. Foi usando os apócrifos que a Igreja Católica fundamentou suas principais heresias. Com base em II Macabeus 6:26; 12:41-46; 15:12-16, o catolicismo romano articulou seus dogmas a respeito do purgatório, oração pelos mortos e vida após a morte. Em II Macabeus 15:12-16, por exemplo, o profeta Jeremias aparece no céu, servindo de mediador e auxiliando o povo de Israel contra os seus inimigos.

 

A Edição Pastoral Catequética, publicada mediante a tradução feita pelos monges de Maredsous, Bélgica, assim apresenta o texto de Tobias 1:6-8:

 

Dirigia-se ao templo do Senhor em Jerusalém, onde adorava ao Senhor, Deus de Israel, oferecendo fielmente as primícias e os dízimos de todos os seus bens. De três em três anos, dava aos prosélitos e aos estrangeiros todo o seu dízimo. Esta e outras práticas semelhantes da lei de Deus, tinha observado desde a sua infância”.

 

Outra versão apresenta estes versos da seguinte maneira:

 

E ia a Jerusalém ao templo do Senhor, e aí adorava ao Senhor Deus de Israel, oferecendo fielmente as suas primícias, e o dízimo dos seus bens, de sorte que a cada três anos distribuía aos prosélitos e aos estrangeiros toda a dizimação”.

 

Mediante estas últimas versões, podemos concluir que existe apenas um dízimo, com reforço para o ensino de que o mesmo, a cada três anos, destinava-se à assistência social.

 

Se levarmos em conta os comentários da Bíblia de Jerusalém, temos que admitir a existência de um único dízimo. Na Introdução ao Pentateuco, pág. 28, esta Versão declara:

 

O Código deuteronômico (Dt. 12:1–26:15) forma a parte central do livro do Deuteronômio, cujas características e história literária apresentamos acima. Retoma uma parte das leis do Código da Aliança, mas adapta-as às mudanças da vida econômica e social; assim, com referência ao perdão das dívidas e ao estatuto dos escravos, compare-se Dt. 15:1-11 com Êx. 23:10,11; Dt. 15:12-18 com Êx. 21:2-11. Mas, desde seu primeiro preceito, ele se opõe ao Código da Aliança num ponto importante: este havia legitimado a multiplicidade dos santuários (Êx. 20:24), ao passo que o Deuteronômio impõe a lei da unidade do lugar de culto (Dt. 12:2-12) e essa centralização acarreta modificações nas regras antigas sobre os sacrifícios, o dízimo e as festas”.

 

As notas de rodapé também confirmam o que demonstramos anteriormente sobre a regulamentação do dízimo.

 

Sobre Núm. 18:20-24:

 

Esta legislação sacerdotal é uma etapa intermediária entre Dt. 14:28,29; 26:12, onde os levitas apenas participam do dízimo trienal, e Nm. 35:1-8, que lhes atribui uma dotação em bens de raiz”.

 

Sobre Deut. 12:

 

Este código (cap. 12-26) reúne sem ordem aparente, diversas coleções de leis de diferentes origens, algumas das quais devem provir do reino do norte, de onde teriam sido introduzidas em Judá depois da queda de Samária. Este conjunto que leva em conta a evolução social e religiosa do povo devia substituir o antigo código da Aliança. Ele apresenta, ao menos em seu fundo, a Lei encontrada no Templo sob Josias (II Rs. 22:8 e seg.)”.

 

Quanto a Ezeq. 44:10-14:

 

Os levitas estavam freqüentemente ligados aos santuários dos lugares altos. Quando esses santuários foram abolidos pelo Deuteronômio e pela reforma de Josias, eles perderam sua posição social e tiveram que passar a viver da caridade pública (Dt. 12:12,18, etc), ou integrar-se ao santuário de Jerusalém (Dt. 18:6-8). Ezequiel ratifica esta última solução, mas atribuindo-lhes uma situação inferior: passarão a substituir no serviço do Templo os estrangeiros que acabam de ser excluídos”.

 

A própria tradição judaica, que criou a idéia do segundo dízimo, não admite a existência de um terceiro. O judaísmo ensina que o dízimo de Núm. 18 era obrigatoriamente para os levitas e o denomina Ma’aser Rishon. Todavia, entende que em Deut. 14 existe apenas um dízimo, o Ma’aser Sheni. Como este funcionava? Em nossas pesquisas sobre o assunto, consultamos, via internet, o Rabino David Weitman, da comunidade Beit Chabad Morumbi, de São Paulo. Este nos passou a seguinte resposta:

 

Prezado amigo: Sempre existiram dois dízimos, tanto no deserto, como na terra de Israel. O 1º (Maasser Rishon) obrigatoriamente para os levitas. O 2º (Maasser Sheni), intercalado uma vez aos pobres e órfãos, e outra ao proprietário consumir em Jerusalém com sua família. Analise bem o texto bíblico e verás a diferença entre dos dois”.

 

Importante saber: O judaísmo entende que em Deut. 14:22-29 existe apenas um dízimo. Tal pensamento entra em conflito com o texto de Tobias 1:6-8 na tradução da Bíblia de Jerusalém e com o gráfico apresentado pela Organização Geral de Curitiba. Se admitíssemos que o dízimo de Núm. 18 nada tem com o dízimo de Deut. 14, teríamos, no máximo, dois dízimos e não três. Reforço para este argumento encontramos nas notas do Rabino Moisés Maimônides, considerado o homem mais sábio do judaísmo medieval. Afirma ele que existem dois dízimos, bem na forma exposta pelo também Rabino David Weitman. O Talmude afirma existir dois dízimos, confirmação tal encontrada na enciclopédia “O Antigo Testamento Interpretado”, de Russel Norman Champlin, Volume 2, págs. 813, 814 e 850, Editora Candeia.

 

O mesmo escritor bíblico, Russel Norman Champlin, afirma existir entre os intérpretes das Escrituras, uma grande controvérsia sobre este tema. Em sua “Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia”, Volume 2 (D-G), pág. 202, Editora Hagnos, Russel expõe os conflitos que permeiam a questão do segundo e do terceiro dízimo.

 

Provas e testemunhos de que em Deut. 14:22-29 e Deut. 26:12, temos apenas um dízimo envolvido:

 

1) F. F Bruce, Professor de Crítica e Exegese Bíblica da Universidade de Manchester.

2) R.V. G. Tasker, Professor Emérito de Exegese do Novo Testamento da Universidade de Londres.

3) Os teólogos M. G. Kline e James Orr em suas obras a respeito do assunto.

4) O rabino Davi Weitman, da comunidade Beit Chabad Morumbi, São Paulo.

5) Moisés Maimônides, considerado o homem mais sábio do judaísmo medieval. Era um rabino espanhol que viveu no século XII na corte judaica de Alexandria, Egito.

6) O Talmude – obra da erudição judaica – aceito como regra de fé e prática pelos judeus ortodoxos.

7) O próprio contexto bíblico de Deut. 14:22-29, que estudado com bastante atenção e sem idéias já pré-concebidas, nos mostra que ali existe apenas um dízimo envolvido.

 

O que concluímos, é que o livro de Tobias, bem como os demais apócrifos da Bíblia católica, ensinam doutrinas falsas e incentivam práticas divergentes das Escrituras inspiradas. O estilo destes livros destoa das Escrituras Canônicas e lhes faltam o caráter divino e a autoridade profética. Uma leitura atenta dos apócrifos revela uma série de anacronismos, bem como erros históricos e geográficos.

 

Quanto à tradição judaica, até que entendemos o zelo e a dedicação dos estudiosos judeus em incentivar o povo à obediência irrestrita da lei. Mas, que fique bem claro: A tradição não possui autoridade bíblica e por muitas vezes vai além daquilo que realmente é requerido por Deus. O confronto entre o que é mandamento e aquilo que não passa de mera tradição está em Marcos 7:1-13.

 

A lei do dízimo no sacerdócio de Melquisedeque não funciona da mesma forma que no sacerdócio de Arão. Em Gên. 14:18-20 e Gên. 28:20-22, o dízimo foi entregue como sinal de gratidão e devoção.

 

O contexto da epístola aos Hebreus nos garante um novo pacto firmado sobre o sólido fundamento dos ensinos de Cristo Jesus. Neste não há lugar para a velhice da letra da lei que regula o sistema levítico.

 

Um, dois, três dízimos, qual a diferença que isto faz para nós? Se estamos em um novo sacerdócio, vale-nos Heb. 7:12: “Pois, quando se muda o sacerdócio, necessariamente há também mudança de lei”.

 

Para aqueles que procuram seguir o rigor do legalismo vai esta firme advertência:

 

Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los”. Mat. 23:2-4

 

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém devíeis fazer, sem omitir aquelas”. Mat. 23:23

 

Antes de nos apegarmos por demais aos acessórios da lei, devemos nos assegurar da prática da justiça, a misericórdia e a fé.

 

É motivo de lamentação o que vem ocorrendo em alguns setores da Igreja de Deus em relação à questão do dízimo. Muitos, entre líderes e membros, tornaram-se crentes fúteis e materialistas, a ponto de fazerem girar a própria fé em torno do vil metal. Agindo com esta mentalidade, distanciam-se de Cristo, e deixam ver que substituíram a mensagem eterna pelas temporais!

 

O mais estarrecedor é ver que alguns irmãos já assimilaram esta fórmula. Isto não é Cristianismo e nem o espírito da verdadeira religião: “A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guarda-se isento da corrupção do mundo”. Tg. 1:27

 

Esta é a nossa posição: Vivamos o novo pacto e o novo sacerdócio instituídos pelo Senhor. Tudo o que dermos e o que fizermos para o serviço da obra, o daremos e o faremos por amor, e não por causa de regulamentos a respeito.

 

 

Evangelista Jesiel Lincoln dos Santos

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Bibliografia:

Gilberto Cotrim, História e Consciência do Mundo, Saraiva.

Louis Berkhof, Princípios de Interpretação Bíblica, Juerp.

Russel Norman Champlin, o Antigo Testamento Interpretado, Candeia.

Russel Norman Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, Hagnos.

O Novo Dicionário da Bíblia, Edições Vida Nova.

Conciso Dicionário Bíblico, Imprensa Bíblica Brasileira.

Edição Revista e Corrigida de Almeida, Vida.

Versão Revisada de Almeida, Imprensa Bíblica Brasileira.

Versão Revista e Atualizada de Almeida, Edições Vida Nova.

Versão Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas.